Antigamente diziam que a imaginação era a janela para o mundo que nós quiséssemos; depois, veio o tempo em que a internet se tornou a janela para qualquer parte do mundo, fossem paisagens, fossem endereços, fossem obras de arte. Mas quando se trata de janelas, uma em especial me vem à mente: as grandes janelas de uma pousada à beira-mar que tive a oportunidade de conhecer em Portugal, quando viajei para um congresso sobre patrimônio cultural. Eu e mais dois colegas de doutorado conseguimos bolsas para fazer a viagem mas, ao invés de nos hospedarmos no grande hotel onde aconteceria o evento, preferimos uma pequena pousada próxima a ele, já que nenhum de nós gostava dos ambientes formais dos hotéis de luxo.
A pousada era térrea e os quartos ficavam lado a lado em um grande corredor – e cada um tinha sua própria vista para o mar, através de uma enorme janela que ocupada toda a área da parede do fundo do quarto. Essa parede de vidro enorme era montada em uma esquadria de alumínio, que também tinha uma porta-balcão (também em alumínio, lógico) para que pudéssemos sair e ir à praia sem ter que passar pelos corredores do hotel, o que achei ótimo.
Tudo de bom
Na verdade, essa pousada era surpreendente pela forma como pensaram no conforto dos hóspedes. Se fosse só a questão do acesso ao mar sem passar pelo corredor comum da pousada eu já teria ficado contente o bastante, mas todo o funcionamento era incrivelmente humano. O comum é que o café seja servido em uma grande mesa com todos os itens e que cada hóspede – ou grupo – ocupe uma mesa menor e vá à mesa maior se servir. Ocorre que isso às vezes limita alguns hóspedes, por se sentirem encabulados de ir até lá e se servir, principalmente aqueles que têm menos experiência com viagens e hospedagens. Nesta pousada, cada mesa pequena já estava servida com os itens principais: leite, café, açúcar e adoçante, pãezinhos, geléias e algumas frutas. Apenas opções mais específicas como frutas especiais e bolos ficavam em uma mesa comum. Assim, cada um se sentava e se servia ali mesmo, como se estivesse na mesa da própria casa.
O serviço de quarto podia ser acionado por telefone mas, nos horários das refeições maiores como almoço e jantar, um funcionário passava de quarto em quarto (já que não eram tantos) perguntando se alguém gostaria de pedir por algum dos pratos. Junto dele, uma camareira perguntava se os hóspedes queriam enviar alguma roupa à lavanderia. Conversando brevemente com o gerente, ele contou que fizeram uma pesquisa informal junto aos hóspedes que demandavam menos serviços – e descobriram que isso se dava à timidez e ao medo e “passar vergonha” ao tentar solicitar um serviço! Isso acontecia especialmente com turistas de outros países, de excursões, jovens em sua primeira viagem sozinhos e estudantes. Para oferecer esse atendimento mais pró-ativo, buscou funcionários que falassem mais de um idioma (inclusive os copeiros e as camareiras) e que tivessem perfil amável e grande grau de empatia. Assim, rapidamente quebrariam a timidez dos hóspedes e eles se sentiriam mais à vontade para solicitar os serviços da pousada – ou a aceitar os que lhes eram oferecidos. Segundo ele, a tática funcionou muito bem!
Mas as janelas…
Eu não conseguia parar de olhar para o mar através daquelas janelas. Até a porta-balcão deu um ar artístico àquela imensa vidraça que, ao mesmo tempo em que me colocava um certo medo (sempre me afastei de vidros grandes assim, por me parecerem instáveis demais), me fascinava. Uma parede inteira feita de vidro, e o mar lá do outro lado, vivo, pulsante. Era como olhar para um desses quadros monstruosamente grandes de Da Vinci, mas esse se mexia, mudava de nível claridade. Pena que o evento foi durante a lua nova porque me disseram que o pôr da lua naquelas janelas é simplesmente de arrepiar até a alma. Posso imaginar…
Mas o pôr do sol eu vi, duas vezes. Enorme, dourado, tão intenso que parecia que poderia arrastar até os móveis do quarto! As paredes branquíssimas ficavam tom de ouro e recebiam a sombra tremulante das folhas das palmeiras que ficavam em frente à grande janela – poucas, para não atrapalhar a vista. O vidro era blindado anti-ruído mas, se eu deixasse a porta aberta, o som do mar quebrando de leve na areia inundava o quarto, junto com a brisa teimosa e irregular. Só faltava, mesmo, uma boa rede lá fora, mas esse prazer eu deixei para as simpáticas pousadas do nordeste do meu distante Brasil, pra onde voltei depois de quatro dias.