
O trabalho científico – mais exatamente, o relato de um – é cercado por regras bastante definidas, das quais pouco ou nada se pode escapar sob o pretexto da “inovação”. O rigor com que os dados devem ser apurados, analisados e descritos é fundamental para que se saiba que aquela pesquisa é séria e levou em conta as principais diretrizes da comunidade científica, como tamanho da amostra (no caso das pesquisas quantitativas) e o por quê deste tamanho, os motivos da pesquisa ter sido realizada naquele local, etc. Se não fosse assim, trabalhos seriam mais parecidos com redações e seria bastante difícil um leitor analisar aqueles dados e entender as conclusões do autor.
Quando pensamos nessas pesquisas, pensamos logo naquela série de tabelas de referência complicadas, milhões de citações e fórmulas mas, na verdade, nem toda pesquisa é assim. Por exemplo, se você estiver na graduação, com certeza já viu muitos artigos por aí durante suas aulas, e provavelmente vários eram um “estudo de caso”. Esteja no início do título ou no final (e geralmente os títulos desse tipo de pesquisa são enormes, tanto em monografias quanto em teses de mestrado e doutorado), essa expressão já indica o tipo de trabalho que vem nas páginas seguintes. E você sabe o que é isso? Um estudo de caso?
Definindo o nome deste dragãozinho
Um estudo de caso é, segundo vários autores de renome, uma forma de olhar a realidade social com o objetivo de compreender um caso em particular. Na verdade, o estudo de caso não é relativo a um tipo de pesquisa mas, sim, relativo a um tipo de questão a responder.
Vamos a um exemplo? Todo mundo sabe que a dona Aranha subiu pela parede, quando veio uma chuva forte e a derrubou. Ora, mas se as aranhas são exímias escaladoras – até de box azulejado (e molhado) de banheiro, como foi que a chuva conseguiu derrubar a dona Aranha de uma parede áspera (supostamente)? Vamos dar um título ao nosso trabalho: “Características que provocam quedas de aranhas da parede: um estudo de caso”. Ok? A pesquisa não tem como objetivo descobrir quantas aranhas sofrem quedas de paredes quando chove; se fosse, nossa pesquisa seria quantitativa. Mas como nosso objetivo é estudar um caso específico (o porquê da dona Aranha ter caído da parede em que estava quando a chuva forte a atingiu), nossa pesquisa será qualitativa exploratória, na modalidade “estudo de caso”. Deu pra pegar a ideia?
“Mas por que qualitativa exploratória?” Porque vamos investigar características específicas do evento (o tombo da dona Aranha); porque todo mundo sabe que a dona Aranha caiu da parede, mas ninguém sabe o porquê. Então deveremos explorar os fatos para chegar às respostas. Sacou? Quando se vai investigar um problema de ordem social (de uma pessoa ou um grupo) que ainda não foi investigado, normalmente a pesquisa tem essas características.
Mas depois discutiremos isso. O importante é que vamos bater um longo papo com a dona Aranha, saber a idade dela (aranhas idosas não são mais tão ágeis nas escaladas, sabe como é), se tem algum problema de saúde, saber que tinta foi usada na pintura da parede em que ela estava, procuraremos dados meteorológicos para saber as características da chuva forte (será que ventava muito? Qual foi o índice pluviométrico? Choveu granizo?), o sapatinho que dona Aranha usava no momento do acidente, etc. E assim, reunindo uma série de informações e juntando-as pela primeira vez (possibilitando inclusive o cruzamento de dados e obtendo mais informações ainda), descobriremos o seguinte:
- A parede estava pintada com tinta a óleo e ficou escorregadia com a água da chuva;
- O índice pluviométrico foi de 110mm naquele evento e o vento alcançou 56km/h;
- A dona Aranha usava um sapatinho de salto baixo mas o joanete atrapalhava a pisar porque doía bastante;
- Ela tinha desgaste da cartilagem do joelho da terceira perna da esquerda, o que tirava a força da articulação.
Ou seja, A dona Aranha deu um baita azar porque saiu de casa num dia de muita chuva, usando sapato inadequado para o joanete, num piso escorregadio e, ainda por cima, estava com um problema ortopédico que impedia exercícios físicos. Por isso ela desequilibrou e caiu. EUREKA!! Acabamos de estudar o caso da dona Aranha e chegamos a uma conclusão!
Onde se usa isso?
Como você pode imaginar, se houve a necessidade de colocar um gráfico no relato da pesquisa acima, foi um gráfico simples – provavelmente um gráfico relatando os índices pluviométricos e de intensidade do vento de hora em hora, onde se pode determinar em qual momento se deu o tombo da dona Aranha. No mais, puro relato em forma de texto. Mas perceba que os dados foram colhidos cuidadosamente (estações meteorológicas, entrevista pessoal com a dona Aranha, entrevista com médicos para saber o grau de dificuldade que os problemas dela poderiam causar durante uma caminhada ou exercícios físicos, etc.). Nada aí foi fruto de mero “achismo” ou pesquisas aleatórias na internet.
Esse tipo de pesquisa em geral é de execução mais rápida, por isso é muito usada em monografias de conclusão de graduação, onde o prazo é curto para pesquisas mais detalhadas. Neste nosso exemplo de brincadeira, o objetivo não foi ver quantas aranhas são derrubadas naquela mesma situação – foi simplesmente descobrir os motivos do tombo da dona Aranha, e só dela. Mais ninguém. Isso foca bastante a pesquisa e a torna mais rápida. E, obviamente, não dispensa uma boa procura por referências bibliográficas para saber que tipos de parede derrapam mais, ou problemas ortopédicos que comumente afligem as aranhas, etc, etc, etc.. rsrsrs
Tranquilo, não é?