De poucas décadas pra cá, presenciamos grandes evoluções tecnológicas. A maneira de produzir insumos, produtos e de oferecer serviços sofreu avanços memoráveis, que tornaram nossa vida mais fácil (ou talvez mais difícil) ao disponibilizar um grande número de opções. Agora, quase todas de nossas tantas necessidades podem ser atendidas de maneira personalizada; por exemplo, shampoos para cada tipo de cabelo, alimentos para pessoas com problemas de saúde específicos (ou para dietas especiais), automóveis na nossa cor favorita, lençóis para cada tamanho de cama, etc…

Porém, mesmo nossa agitada vida moderna dos dias atuais não foi suficiente para extinguir alguns hábitos antigos e muito consolidados em nossa cultura. Em muitas cidades pequenas, ainda se vê famílias que, aos fins de semana, colocam banquinhos na calçada em frente às suas casas e ficam ali observando o movimento na rua, enquanto conversam entre si e com os vizinhos e outros amigos que passam por ali. Ainda é possível encontrar, também, mercearias onde arroz, feijão e milho são vendidos a granel; eles ficam guardados em grandes sacarias de tecido e os próprios clientes se servem, pesando o produto em seguida, pagando e indo embora.

Mas um hábito que nem sempre notamos ser antigo é o de frequentar a feira livre. É um hábito tão comum nos dias de hoje que nem parece que vem de muito, muito tempo atrás. Em dia de sol forte, lá está ela, com seus produtos devidamente protegidos da luz solar e do calor por sombrinhas e toldos; nos dias de chuva, ela insiste em marcar presença também, com seus produtos colocados sobre suportes e paletes para que não fiquem em contato com a umidade. Mas está lá, teimosa, esperando pelos clientes.

Desde muito cedo

Feirantes-e-sua-longa-rotina-de-trabalho.Vida de feirante não é nem um pouco fácil. Em sua maioria, estes bravos comerciantes trazem para a feira produtos que eles mesmos cultivaram em suas terras; algumas vezes estes produtos foram trazidos porque “sobraram” após uma boa produção, outras vezes toda essa produção é exclusiva para a venda nestas feiras.

E como se já não bastasse todo o trabalho até aqui, os feirantes ainda precisam se levantar no início da madrugada e levar seus produtos para a feira – e deve ser cedo MESMO, porque ainda é necessário erguer a barraquinha (ou montar o mesão) e dispor tudo ali, pois muitos clientes gostam de vir antes mesmo do sol raiar – assim aproveitam os melhores produtos da feira, já que ainda não foram manipulados pela multidão que chega por volta das sete da manhã.

A fim de ganhar um pouco de tempo, muitos feirantes investem em barracas de montagem rápida, compostas por hastes metálicas de encaixe rápido, uma tábua para servir de balcão e uma lona para sombrear o feirante e os produtos expostos. Alguns modelos são tão rápidos na montagem que, em menos de quinze minutos, toda a estrutura já está a postos. A maior vantagem é sentida antes da própria montagem: o feirante poderá dormir um pouco mais – o que é ótimo, já que o dia na feira é bastante cansativo!

Muitas vezes, os filhos também vêm junto para ajudar nas vendas, especialmente quando o produto que oferecem tem grande procura – nesse caso, quanto mais clientes puderem ser atendidos simultaneamente, melhor! Mas dependendo do produto ofertado, quem vem é a esposa ou a mãe do feirante, principalmente em casos de venda de artesanato ou de doces caseiros que são feitos por elas. Isso porque muitas vezes as compradoras destes produtos têm algumas dúvidas sobre o uso, os cuidados de armazenamento, a validade, etc., além do também velho hábito de trocar algumas ideias. Sim, a feira pode se assemelhar a uma grande vizinhança algumas vezes!

Faça chuva ou faça sol

Faça-chuva-faça-Sol,-às-feiras-permanecem-lá.Uma característica marcante da feira é sua presença garantida. Não importam as condições climáticas, se está muito quente ou se está gelado, se está ventando muito ou chovendo torrencialmente. Muitas dessas condições afastam grande parte dos clientes, mas os feirantes sempre estão lá.

Se venta muito, dão um jeito de firmar as barracas com tijolos, pedras, banquinhos, às vezes até o próprio caminhão! Se chove demais e os produtos ficam no chão, conseguem um palete usado em algum lugar e expõem os produtos ali – mesmo que peguem chuva, a distância do chão impedirá que encharquem. Se está muito quente, muita água e o máximo de sombra que conseguirem ajudará a resistir durante a feira toda (se conseguirem um ventilador, melhor ainda!). E se frio demais: muito casaco, até cobertor vale… e Deus nos ajude.

Tanto esforço serve, sim, para que estas tantas famílias de feirantes provejam o sustento de suas casas e garantam a saúde e a atenção a seus filhos; mas também perpetua este hábito tão antigo das feiras livres – que até o momento, não dão o menor sinal de cansaço. Que este hábito tão tradicional continue por muitas gerações!