Engraçado demais isso! Eu sempre quis fazer um intercâmbio, e ficava imaginando que faria isso quando fosse pra universidade, que costuma oferecer esse tipo de oportunidade. Me imaginava indo para outros países, conhecendo outras culturas, outros idiomas, me especializando junto aos melhores profissionais ou pesquisadores em países de vanguarda da minha área – Comunicação. Resumo: me imaginava na Europa. É, eu sou dessas que sonha acordada, enredo completo e até o nome dos personagens.

Intercâmbio de Primas

O que eu não sonhava é o que eu viveria antes disso tudo: um intercâmbio dentro da minha própria família! Na minha cidade, em Minas, tem universidade federal, mas não o curso de Comunicação, mas uma em São Paulo tem. E uma prima minha queria fazer Agronomia, e tinha esse curso na minha cidade, e é referência na área. O que nossas mães, que são irmãs, pensaram? “Vamos trocar nossas filhas? Fazemos um intercâmbio: a sua vem morar comigo e estudar aqui, a minha vai morar com você e estudar aí. Que tal?”. E lembro das duas ao telefone, rachando de rir e tramando os pormenores dessa ideia. E eu no Whatsapp com Diana, ‘tramoiando’ com ela por fora.

Toma lá, dá cá

– Ce ta ouvindo sua mae conversando com a minha?

– To minina. Elas tao querendo trocar a gente?

– É. Eu quero fazer o curso q tem ai e vc quer fazer o q tem aqui… elas vao fazer um intercâmbio com a gente. O q vc acha?

– Ah eu gosto da sua mãe e da cidade, acho q vai ser legal

– Eu tb

E assim foi. Diana foi pra minha casa assim que soube que tinha sido aprovada pro curso, e eu fui pra casa dela mais ou menos na mesma época. No começo deu uma preguiça porque, além de me adaptar ao curso, eu teria que me adaptar à rotina da casa dela, que era totalmente diferente da minha. Eu adorava meus tios, mas eles eram tão diferentes dos meus pais que tive medo de não dar conta. Eram comerciantes, e a rotina da casa era toda voltada pra isso. As conversas à noite giravam em torno do preço dos fornecedores, da economia da casa, do planejamento das compras do mês… Meu Deus, lá em casa a gente nunca planejou uma compra do mês! Só víamos o que estava faltando, anotávamos numa listinha e íamos ao supermercado. Já sabíamos qual oferecia preços melhores, então íamos sempre no mesmo.

Meus tios, não. Pesquisavam os preços da lista toda em cada um dos quatro supermercados favoritos deles. Dois tinham preço na internet, os outros dois a gente precisava ir pesquisar pessoalmente. E quando eu não tinha prova nem trabalho para entregar, tinha que ir junto! “Pra você ir vendo como se faz, Luara”, dizia meu tio. Isso quando minha tia não me chamava para ir à feira com ela, pra me ensinar a pechinchar. Tudo aquilo era totalmente estranho pra mim. Já Diana também passava seus apertos lá em casa. Assim como meus tios, ela era extremamente cuidadosa com preços, e ficava horrorizada com a forma com que meus pais controlavam as despesas de casa.

Intercâmbio de aprendizado

E foi assim que passamos cinco anos de nossas vidas: num ambiente totalmente diferente daquele que conhecíamos a vida inteira. Mas como tudo ao longo do tempo, nossa resistência foi sendo quebrada aos poucos e, quando finalmente nos formamos e voltamos para nossas casas “originais”, estávamos mudadas – pelo curso e por nossos tios. Diana voltou mais light em relação à vida, mas sem ter desaprendido o controle financeiro que sabia desde a infância. Eu voltei mais cautelosa com as finanças, mas sem perder meu lado tranquilão, aprendido com meus pais. E nossos pais também se aproveitaram da troca! Os meus passaram a pesquisar melhor os preços e conseguiram começar um pé de meia interessante; já os pais da Diana aprenderam a conversar sobre coisas mais agradáveis quando a família estava reunida – soube que até marcaram uns passeios!

Nunca fiz o sonhado intercâmbio para o exterior; o processo era muito mais complicado e exigente do que eu imaginava e não tive sucesso nas minhas tentativas. Mas já tinha uma ideia do que teria sido e podia dizer, sem medo de errar, que tinha essa experiência no currículo.