Quando eu era pequena, minha brincadeira favorita era brincar com massinha de modelar. Eu tinha vários brinquedos, mas meus próprios pais começaram a parar de comprá-los e até a recomendar que parentes e amiguinhos não me dessem outras coisas, porque eu só gostava de modelar coisas. Bonecas mal saíam das caixas, ursinhos duravam anos com o pelo perfeitinho, corda de pular dava até mofo. Eu queria modelar. Então comecei a ganhar massinhas, massinhas, massinhas…

E de fato existiam vários fabricantes de brinquedos que faziam jogos de massinha com moldes. Lembro de bonecos ocos que a gente enchia com massinha e depois espremia ela lá dentro, pra forçá-la a sair pelos furinhos na cabeça do boneco até parecer que era cabelo. Lembra desses? Aí, sim, eu curtia! Até daquela meleca gelada e esquisita eu gostava! Teve uma vez que fomos passar um feriado na praia de Maresias, e me deram pazinhas, baldinhos e potes de cozinha pra poder brincar de escultura na areia. Quase nem entrei na água!

Castelo de Areia

Minicidades

E eu passava tanto tempo assim na areia porque não me conformava com castelinhos simples de duas, três torres e uma murada em volta. Nada disso. Meus castelos tinham torres mais altas pra eu poder fazer uma escada que subia por fora delas até a portinha lá em cima. E cá em baixo tinha porta também. E mais: tinha textura de tijolos nas paredes! A murada era detalhada e tinha o lugar do portão de entrada e tudo.

Sim, eu era bem pequena, então quem me ajudava a achar o “ponto” de umidade certo pra areia era meu pai. Não podia ser molhada demais senão “derreteria”, e se fosse seca demais ia desmanchar antes de finalizar. E quem me chamava pra ir brincar na água era minha mãe, que achava um absurdo a gente sair do interior pro litoral e eu não pular uma única onda. Ainda mais na praia de Maresias! Como não aproveitar um lugar daquele? Não tem jeito, né?

Tomei gosto pela modelagem na areia e comecei a passar meus intervalos da escola na quadrinha (quadra pequena) de areia que tinha no parquinho. Os primeiros dois dias eu tentei achar o ponto de umidade e não consegui. No terceiro, uma tia me ajudou e eu entendi a quantidade de água, e ainda me deu uma dica: usar um borrifador pra quando a areia começasse a secar. Ela até me deu um! Assim, voltei a fazer meus castelos, mas dessa vez com asinhas ao redor pros aldeões. Eram praticamente minicidades que surgiam no intervalo – e eu me dedicava tanto que muitas vezes esquecia de comer meu lanche! Aí minha professora chamou meus pais.

Carreira à vista?

Eu tinha talento pra coisa, e isso já tinha sido percebido. O problema é que eu obviamente não estava sabendo reservar a quantidade certa de tempo fazendo minhas esculturas, e era importante que eu já fosse aprendendo isso logo, senão atrapalharia meus estudos e até minha relação com os coleguinhas, com a família…

Com isso, meus pais me colocaram numa escolinha de artes manuais. Era coisa simples, pra criança mesmo, e logo eu me sobressaí. E de tanto fazer aquilo, minha coordenação motora fina foi ficando muito boa e passaram a permitir que eu usasse objetos mais precisos pra fazer detalhes, janelinhas, rostinhos, etc.. Em pouco tempo, decidiram fazer uma pequena exposição com as artes de todos os alunos, e as minhas chamaram a atenção de um curador que também tinha colocado o filho naquela escolinha. Meus pais mostraram a eles algumas fotos dos meus castelinhos na praia de Maresias e também as artes de massinha de quando eu era mais nova, e ele ficou empolgado. Recomendou algumas faculdades de Belas-Artes, o que deixou meus pais empolgados – mas eles não me falaram nada.

Só anos depois, quando eu já entendia melhor as coisas, eles revelaram essa conversa e me sugeriram o curso de Belas-Artes – e eu, obviamente, fiquei atraída. Aliás, esse ano é meu primeiro ENEM e estou estudando DEMAIS pra entrar no curso de uma faculdade do Rio. Imagina se dá??