Essa é a história do tio César, um cara muito bacana, entusiasmado com a vida e solteirão convicto. Ele dizia que casamento e filhos são duas formas de prisão que a lei não informa a respeito. Mas uma coisa que ele falava e eu achava muita graça era: “casamento é igual piscina gelada: o primeiro bobo pula e depois fica tentando convencer os outros a pular também”. Por isso, nunca precisou de casas grandes, já que estava sempre sozinho.

Numa certa altura da vida, ele resolveu morar em apartamento; achava mais seguro e gostava mais de subir de elevador do que de abrir o portão de casa pra entrar. Vendeu uma linda casa num condomínio fechado e comprou um apartamento de dois quartos no centro da cidade. Não era grande, mas ele era sozinho, mesmo… desde que a cozinha e a copa fossem espaçosas (ele adora receber os amigos), os outros cômodos podiam ser pequenos.

Um problema de ordem técnica…

E ambiente pequeno era o que não faltava ali. A cozinha e a copa eram espaçosas como ele queria, mas os quartos eram minúsculos. Cabiam a cama, o guarda-roupas e no máximo um criado-mudo em um dos lados da cama. Na parede oposta à porta, havia uma porta que dava numa pequena – pequena MESMO – sacada. No outro quarto era a mesma coisa, e a sala também tinha uma sacadinha. As portas dos quartos abriam para dentro e ocupavam um espaço valioso; já a da sala, sabe-se lá o porquê, abria para fora, na sacada. E batia na mureta antes de se abrir totalmente, deixando um espaço “morto” atrás dela. Um incrível erro de engenharia, visível para qualquer leigo. Tio César não pensou duas vezes: “vou colocar porta balcão nesses cômodos e resolver isso”.
As portas originais eram de alumínio, porém basculantes; logo, ele teria que trocar também os dormentes originais. Chamou um funcionário de uma serralheria, que foi até lá, mediu cada porta, fez o orçamento e entregou para meu tio; na semana seguinte, ele já estava de volta com as novas portas e com várias ferramentas na maleta, além de um ajudante.

Já-deu-pra-imaginar-o-tamanho-do-barulho-né

E foi uma barulheira dos diabos! Os funcionários eram muito bons de serviço, mas um pouco estabanados. A todo momento, ouvia-se o barulho de alumínio batendo no chão, pancadas na parede, alumínio sendo serrado, sendo cortado… Foram horas realmente de muito barulho naquele apartamento. Mas o problema é que barulho não respeita parede, e o vizinho de baixo ficou um pouco… digamos… “mordido” com aquela confusão toda. Em meia hora, ele já estava à porta, pedindo explicações ao tio César, que explicou na maior calma do mundo sobre o que estava acontecendo ali.

… e um problema de ordem humana

No fim de semana, meu tio foi convocado para uma reunião de condomínio. Ele já riu-se todo, esperando que fosse uma sessão coletiva de reclamações sobre o barulho daquela pequena obra (que aliás, ficou muito boa! A porta balcão praticamente aumentou todos os cômodos em quase 1 metro). Qual nada… a reclamação era sobre a mudança no VISUAL EXTERNO do prédio! Tio César ficou tão surpreso que achou que não tinha entendido direito, então o síndico explicou.

O problema é que, visualmente, a porta balcão é muito diferente da porta basculante e quem olhasse de fora, perceberia a diferença entre as portas das sacadas do meu tio e as demais. Na tese dele, “isso fica feio”. Além do mais, havia uma cláusula no estatuto do prédio que impedia alterações visuais que fossem visíveis do exterior e blábláblá… Desfiou um rosário, que aliás foi rezado por todos os demais. Por fim, ele passou a palavra para meu tio, que permanecia impassível frente àquela bronca coletiva.

Tio-César-convidou-aos-membros-para-que-visitassem-seu-condomínio.“Eu gostaria que os membros da comissão me acompanhassem à minha casa, só por alguns minutos, antes de eu falar. Pode ser?” Os presentes içaram um pouco surpresos, e alguns chegaram a pensar que aquele morador “dedo-duro” havia se enganado. No início, a comissão resistiu ao convite, mas com jeitinho (e tio César tem muito), acabaram cedendo.

Esperando pelo elevador, ele pediu para passarem antes no apartamento de um deles para conferirem a aparência das portas basculantes originais. Passaram no apartamento do síndico, o qual, visivelmente, teve dificuldades para organizar alguns móveis devido exatamente a essas portas. Em seguida foram ao apartamento do meu tio, onde até sobrava espaço depois que as portas balcão foram instaladas. Meu tio fez os membros da comissão testarem as portas, acessarem as sacadas – inclusive a problemática sacada da sala, que agora não tinha mais área morta nenhuma; encontrava-se totalmente livre pra ser curtida ao máximo.

Em cinco minutos, estavam todos de volta ao salão de festas onde acontecia a reunião. Meu tio dispensou a palavra e devolveu o microfone para o síndico, que encerrou a reunião e informou que a comissão deliberaria sobre o caso e comunicariam a decisão no menor prazo possível.

Na semana seguinte, chegou uma circular a todos os apartamentos: era uma convocação para discutirem sobre a troca de todas as portas de acesso às sacadas do prédio por portas balcão.